Publicado por: Gladis Maia | 31/01/2010

O DESAFIO É: APRENDER A VIVER COM UMA APRENDIZAGEM CIDADÃ.

Gladis Maia

Muitos professores estão instalados em seus hábitos e autonomias disciplinares. […] como lobos que urinam para marcar seu território e mordem os que penetram.

O autor da epígrafe deste artigo, Edgar Morin – sociólogo francês, autor de A Religação dos Saberes, Ciência com Consciência, entre outros títulos – aborda,  em  “A Cabeça Bem-Feita: repensar a reforma reformar o pensamento”, uma não tão velada crítica aos saberes estanques, compartimentados em disciplinas, tais como se apresentam na contemporaneidade nos currículos escolares.

O livro apresenta – em poucas e complexas páginas – idéias a respeito de uma reforma de ensino que demanda para o seu sucesso também uma reforma na cabeça dos reformadores.

Morin acredita que os problemas do limiar do século XXI (a obra é de 1999), cada vez mais transnacionais e planetários, reclama uma inter-poli-transdisciplinaridade entre os saberes.

Para o autor, os desenvolvimentos disciplinares das ciências acarretaram a  hiper-especialização corrente em nossos dias, produzindo  não só   conhecimento e a elucidação, vantagens para a divisão do trabalho,  mas  o despedaçamento do saber , ao se fechar em si mesma,  sem permitir sua integração em uma  problemática global ou em uma concepção de conjunto do objeto de estudo,seja qual for ele.

A organização disciplinar, nascida no século XIX, com a formação das universidades modernas e desenvolvida crescentemente no século XX, com o impulso da pesquisa científica, a par das grandes descobertas,  trouxe ao ensino a incapacidade de articulação dos saberes e o atrofiamento da qualidade fundamental da mente humana, ou seja, sua aptidão para  a contextualização e integração.

Trouxe ainda o desafio da expansão descontrolada do saber. Nas palavras do ensaísta francês: “O crescimento ininterrupto dos conhecimentos constrói uma gigantesca torre de Babel, que murmura linguagens discordantes. (…) em toda parte, nas ciências como nas mídias, estamos afogados em informações. O especialista não chega sequer a tomar conhecimento das informações concernentes à sua área”,  dificultando,  conseqüentemente,  a integração de novos conhecimentos para a condução de nossas vidas.

Essa falta de percepção global enfraquece o senso de responsabilidade e, por conseqüência, a solidariedade. Cada um tende a responsabilizar-se por sua tarefa especializada. Ninguém mais conserva o elo orgânico com a cidade e seus concidadãos.

Enquanto o expert perde a aptidão  de conceber o global e o fundamental, o cidadão perde o direito ao conhecimento, muito mal compensado pela sua vulgarização na mídia.

Morin levanta também a  problemática histórica e cabal da necessidade de uma democracia cognitiva, pois quanto mais técnica torna-se a política, mais regride a competência  democrática.

Autoridades em ensino parecem desconhecer que o desenvolvimento das aptidões gerais da mente permitem o melhor desenvolvimento das competências particulares ou especializadas.

Ele denuncia também que o livre exercício da curiosidade(  faculdade comum e mais ativa na infância e na adolescência),  a arte da argumentação e da discussão, a valorização do pensar bem, a reflexão sobre os conhecimentos científicos, a serendipididade ( arte de transformar detalhes aparentemente insignificantes, em indícios que permitem reconstruir toda uma história) estão quase todo o tempo  fora dos trabalhos, durante a Escola Fundamental e Média.

O ensaísta esclarece que os atributos de um ensino educativo acima descritos são geralmente desprezados, em nome de uma autodisciplina e  bom comportamento  infecundos e de uma acumulação de conhecimentos, também estéril.

Como esclarece o autor,  o conhecimento comporta, ao mesmo tempo, separação e ligação, análise e síntese. Nosso ensino tem privilegiado a separação, em detrimento da ligação,  e  a análise,  em detrimento da síntese. Sendo que é um imperativo da Educação contextualizar e globalizar os saberes: reconhecer a unidade dentro do diverso e o diverso dentro da unidade.

A cultura das humanidades – que favorece a aptidão para a abertura a todos os graus e grupos de problemas – aliada à cultura científica, numa “Educação para uma cabeça bem-feita”, pode promover a capacidade , ao longo das diversos níveis de ensino, para se responder aos formidáveis desafios da globalidade e da complexidade na vida quotidiana, social, política, nacional e mundial, na sua visão.

Diz que o ensino contemporâneo,  ao  tender ao programa,  está defasado, porque a vida exige estratégia e, se possível, serendipidadade e arte.

A estratégia opõe-se ao programa, ainda que possa comportar elementos programados, pois o programa só funciona em condições externas estáveis;   a menor contrariedade desregula sua execução. Já a estratégia procura, incessantemente, reunir informações colhidas ao acaso, durante o seu percurso. A estratégia, ao trazer a consciência da incerteza que vai enfrentar – lembre que no Brasil estamos em tempos de implantação da inclusão em nossas escolas – encerra uma aposta, exigindo fé e esperança.

Percebamos que,  já é mais do que hora da Educação decidir-se por um ensino que realize a convergência de vários ensinamentos, mobilizando diversas ciências e disciplinas para enfrentar a incerteza do mundo que muda,  numa velocidade vertiginosa, em todos o sentidos.

Em sendo assim, a Educação deve – acima de tudo –  passar a contribuir para a auto-formação da pessoa, ensinando ao aluno a assumir sua condição humana, ensinando-o a viver e se tornar cidadão  solidário e responsável pelo seu semelhante, pela sua comunidade próxima,  pela sua pátria, continente,  planeta e até mesmo o cosmo.

E, para que tudo isto aconteça, mais do que nunca é preciso amar, pois,  “Onde não há amor, só há problemas de carreira e de dinheiro para o professor; e de tédio, para os alunos.” Particularmente, gostei da leitura e a recomendo. Vale a pena conferir!Namastê!

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