Publicado por: Gladis Maia | 26/04/2009

Se não quereis castigar os filhos, não os deixei cair em tentação…

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Gladis Maia

A força do castigo está em silenciar, não em refutar. Samuel Johnson, in Sermões.

O castigo pode reprimir a criança, mas não lhe ensinará a auto-disciplina. Esta só é adquirida por identificação com aqueles a  quem a criança  admira, como nos referimos no artigo da semana passada. É o exemplo, diuturnamente, que educa!

Evidentemente que é muito difícil para uma criança entender –  se não for  incompreensível de todo –  por que, o pai que desrespeita as leis do trânsito fica furioso com uma transgressãozinha qualquer sua … Se o pai encontra inúmeras razões para explicar a ultrapassagem perigosa, o excesso de velocidade, o estacionamento em área proibida, é claro que o filho também tem explicações para a sua desobediência, mas alguém quer ouvi-lo?  Como sempre, tudo depende do que fazemos e não do que dissemos.

No entanto se, embora desaprovando o que o filho fez,  o pai – ou mãe  – compreender que a criança ache sua atitude justificável, dará margem a um diálogo.

Se o adulto levar o filho a acreditar que não considera suas razões dignas de reflexão – não mporta quais sejam – ele ficará convicto de que o pai só dá crédito  à sua própria maneira de pensar e jamais a dele, quando não está de acordo com o que pensa. Nesse caso, a criança  tornar-se-á mais obstinada contra o pai e sua maneira de pensar.

A dificuldade maior é que os pais não estão dispostos a se satisfazerem apenas com a desistência da criança em comportar-se de determinada forma, mas querem que ela concorde que ele está  certo ao fazê-la desistir. E convenhamos que isto nem sempre é verdadeiro, às vezes é apenas uma questão de gosto pessoal…Outras,  não é ainda o tempo adequado para a  criança entender  determinado assunto.

Das transgressões mais comuns na infância, sem sombra de dúvidas a que mais irrita os pais é o roubo. Mais perturbador do que o ato, propriamente dito, é a idéia de que a criança venha a ser uma ladra na idade adulta. E, por este motivo, com freqüência, a reação dos pais é mais  proporcional à sua ansiedade em relação ao futuro do que ao delito real presente.

Como a criança não pensa em tornar-se uma criminosa quando pega um objeto ou uma quantidade em dinheiro que quer transformar num objeto do seu desejo, ela fica muito magoada com  a reação rástica dos pais que lhe parece totalmente inadequada por vê-la como um bandido em potencial.

Como explica Bettelheim , geralmente ela sabe que agiu mal e está pronta a aceitar a insatisfação dos pais, mas apenas em relação ao que fez aqui e agora, pois ela ainda não tem condições de imaginar o futuro, muito menos está preocupada com ele, já lhe bastam as suas preocupações com as pressões do presente.

Evidente que o psicanalista não está sugerindo que se passe a mão por cima da criança, pois isto pode encorajá-la a repetir o ato talvez em escala maior. Não devemos menosprezar o fato, mas também não podemos exagerá-lo, além do que a criança possa entender. O que roubou deve ser imediatamente devolvido, com as devidas desculpas, até porque a criança entende essa necessidade.

Mandá-la sozinha devolver o que retirou pode não ser a melhor idéia. Sem a supervisão do adulto talvez não devolva, intimidada,  e também porque o mais importante é que ela perceba o quanto os pais estão descontentes e desconcertados com sua atitude.

“Para a criança que ama seus pais, perceber que os envergonhou aos olhos de um  estranho é uma das piores experiências que pode ter. No entanto, se também a castigarmos, isso poderá diminuir consideravelmente os efeitos de sua angústia. (…) é muito melhor simplesmente deixar a criança observar o sofrimento e embaraço que nos causou por meio de nosso comportamento em relação àqueles de quem roubou. Ela se lembrará disso e tenderá evitar repetições.”, explica o psicanalista.

Muitas crianças roubam pela excitação que experimentam quando o fazem, embora não tenham consciência de que é o desejo de excitação que as leva a fazê-lo. Podem também estar querendo punir a pessoa de quem roubam, por algum motivo.

Devemos portanto ser mais cuidadosos com aquilo que não queremos que as crianças peguem . Pais descuidados demais, colocam a tentação no caminho dos filhos, porque freqüentemente são propensos a pensar que seus filhos são virtuosos, embora saibam que a maioria das crianças comete pequenos furtos de vez em quando, cuidado… Talvez a criança até possa resistir a tentação se for esclarecida de que todos nós sofremos tentações facilmente, pois afinal rezamos ao Senhor para que não nos deixei cair em tentação

Em termos ideais um filho deveria deixar de fazer coisas que não estão certas observando a decepção dos pais, mas nem sempre isto é eficaz. “… então a ameaça de um enfraquecimento limitado e momentâneo de nosso amor e afeição é o único método seguro de deixar marcado nele que seria bom que entendesse nosso pedido – do contrário, não seremos mais capazes de pensar em termos tão elevados, ou de amá-lo quanto ele e nós desejamos.”, esclarece o psiquiatra.

Muitos pais, com a melhor das intenções, destroem a eficácia do método garantindo que amam ao filho incondicionalmente. Isto, mesmo sendo verdadeiro, soa como mentira para a criança que percebe que estão irritados ou até magoados com ela. E, mesmo porque ela própria não os ama invariavelmente, durante as 24 horas do dia…

A maioria de nós também não é capaz de amar a despeito de tudo que o amante  tenha  feito. Por isso, qualquer esforço para nos fazer melhores do que somos terá efeito oposto ao desejado.

No momento que nos desapontamos,  nosso amor pode perfeitamente estar em baixa e se queremos que as crianças mudem sua maneira de se comportar elas devem saber disto.Pensem a respeito! Namastê!

Fonte: Uma Vida para seu Filho, de Bruno Bettelheim.

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